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Por que a intensidade física da Premier League está cobrando seu preço na Liga dos Campeões — e a razão evidente pela qual os clubes ingleses estão sofrendo contra os rivais europeus

O mau desempenho dos clubes ingleses na Europa está longe de ser novidade. Há apenas uma década, a Premier League temia perder a sua quarta vaga na Liga dos Campeões, depois de nenhum time da elite alcançar as quartas de final em duas das três temporadas.

Pelo quarto ano seguido, a Premier League terá dois clubes nas quartas de final. Isso não parece tão ruim até lembrar que havia seis equipes nas oitavas, e quatro delas acabaram eliminadas por um placar agregado de 28 a 11.

As pesadas derrotas de Manchester City, Chelsea, Tottenham e Newcastle levaram, inevitavelmente, a questionamentos imediatos sobre o que deu tão errado.

O Chelsea foi uma das quatro equipes inglesas eliminadas nas oitavas de final da Liga dos Campeões

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Newcastle United foi eliminado na quarta-feira após sofrer uma pesada derrota no jogo de volta contra o Barcelona

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A primeira reflexão é até que ponto as exigências físicas da Premier League, a atual ênfase em corrida e disputa física, somadas a um calendário extenuante, levaram nossas equipes ao esgotamento.

A goleada por 7 a 2 sofrida pelo Newcastle em Barcelona foi o 50º jogo da equipe na temporada, mais do que qualquer outro clube das cinco principais ligas da Europa. Desde a última pausa internacional até o jogo de ida das oitavas de final, o maior intervalo entre partidas foi de seis dias. Arsenal e Manchester City tiveram oito dias, enquanto Chelsea e Liverpool contaram com nove. Já Barcelona, Real Madrid, Atlético de Madrid e PSG, algozes dos clubes ingleses, desfrutaram de pausas entre 13 e 15 dias.

Pelo menos oito jogadores — cerca de um quarto ou mais do elenco utilizado — de Liverpool, Newcastle, Arsenal, Chelsea e Manchester City somaram ao menos 2.500 minutos em todas as competições. É um número superior ao de qualquer outro clube das cinco grandes ligas que chegou às oitavas de final, com exceção do Atlético de Madrid, empatado com o City em 24%.

Entre os 20 jogadores de linha desses clubes com mais minutos em toda a temporada, 12 — incluindo os cinco primeiros — são de equipes inglesas.

E o velho clichê de que "não há jogos fáceis" na Premier League raramente foi tão verdadeiro. Apenas 22 pontos separam atualmente o quarto colocado do 18º, a menor diferença desde 2011 e, com folga, a liga mais equilibrada entre as principais competições da Europa.

Os clubes ingleses já não conseguem poupar pernas ao passar com facilidade pelos azarões.

Tudo isso está cobrando seu preço? Nos 10 jogos anteriores do Newcastle na Liga dos Campeões nesta temporada, a equipe correu mais que os adversários. Mas, nos dois confrontos contra o Barcelona, o time espanhol percorreu mais distância, enquanto o Newcastle registrou seus dois menores índices da campanha.

O Manchester City também registou os seus números mais baixos da temporada nos dois jogos contra o Real Madrid.

A distância percorrida por uma equipe durante uma partida é influenciada por vários fatores, como o andamento do jogo, o plano tático, expulsões — como aconteceu com o City no jogo de volta — e, sobretudo, o tempo real de bola em jogo. Os números do Newcastle contra o Barcelona sobem muito quando ajustados ao fato de que a bola ficou em jogo por apenas 46 minutos na partida de volta.

O Liverpool ainda registou a maior distância percorrida na competição em toda a temporada para reverter a desvantagem contra o Galatasaray, enquanto o Tottenham também apresentou alguns dos seus números mais altos na tentativa frustrada de fazer o mesmo diante do Atlético.

Embora a dureza da Premier League possa ter pesado nas pernas cansadas, o seu maior impacto foi o vazio criativo que deixou pelo caminho.

Entre os 20 jogadores que mais criaram chances em jogo corrido nesta temporada da Liga dos Campeões, apenas um pertence a um dos seis clubes ingleses que chegaram às oitavas de final.

Não surpreende que Florian Wirtz, o jogador que mais teve dificuldades para se adaptar à intensidade da Premier League, esteja mostrando o seu melhor e mais produtivo futebol na Europa. Na noite de quarta-feira, Wirtz criou oito chances contra o Galatasaray, o maior número já registado por um jogador do clube em um único jogo da Liga dos Campeões.

O desempenho de Florian Wirtz na Premier League ainda não alcançou o nível mostrado na Liga dos Campeões

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Será mesmo surpreendente que, ao atuarem em uma liga que trocou técnica e astúcia por velocidade e força, as estrelas tenham dificuldade para fazer o mesmo quando isso é exigido na Europa?

Apenas 20 jogadores da Premier League criaram pelo menos 30 chances em jogadas de bola rolando nas primeiras 30 rodadas da temporada. No mesmo estágio da última temporada, esse número era o dobro, e havia sido 37 na temporada anterior.

Apenas seis jogadores criaram 40 chances em jogadas corridas, contra 15 nesta fase da temporada passada e 12 em 2023-24. Bruno Fernandes é o único jogador a ultrapassar 50. No mesmo ponto das duas campanhas anteriores, eram quatro e seis.

Não é difícil imaginar que, quando os defensores na Inglaterra deixam de enfrentar criadores de elite semana após semana, em uma liga em que a força física e as bolas paradas imperam, passem a ter dificuldades na Europa, onde disputar no corpo a corpo nas cobranças de escanteio já não basta.

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