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Evra critica lendas do Man Utd por comentários sobre Michael Carrick

Patrice Evra nunca foi de suavizar uma opinião. Ele não dá meias declarações cautelosas nem fala como alguém que tenta deixar todas as portas abertas.

Foi exatamente isso que aconteceu em sua entrevista mais recente ao Stake.com, na qual Evra não deu apenas previsões e opiniões. Ele apresentou uma visão de mundo, falando sobre lealdade, pressão, a forma moderna de jogar, a propriedade no futebol e a cultura em torno do esporte.

Parte do que ele disse teve seu próprio humor. Parte foi dura. Mas, por trás das piadas e das provocações, havia uma mensagem clara do início ao fim. Evra parece profundamente desconfiado de quem se mantém perto do futebol sem realmente carregar o seu peso. Isso inclui comentaristas que atacam treinadores cedo demais, dirigentes que querem o espetáculo sem a alma e qualquer um que trate a cultura do futebol como algo que pode ser trocado por uma versão importada e mais vistosa.

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A entrevista com Patrice Evra foi muito mais interessante do que a habitual conversa de celebridade sobre futebol. Não foi polida nem diplomática. Foi um ex-jogador de elite tentando defender aspectos do esporte que ainda considera sagrados, ao mesmo tempo em que aceita que o futebol em 2026 está mudando.

A parte mais marcante da entrevista foi provavelmente a defesa de Evra a Michael Carrick. Ele afirmou claramente que as lendas do Manchester United têm sido negativas demais, citando Paul Scholes, Roy Keane e Gary Neville, e defendendo que Carrick merece apoio, e não críticas constantes de ex-jogadores que viraram comentaristas.

Ele também destacou que o breve trabalho de Carrick já era forte o suficiente para justificar paciência e o chamou de "o homem do momento".

Evra não defendia apenas um treinador. Defendia a ideia de que um clube deve apoiar um dos seus quando a situação ainda é frágil. Sua frustração não era apenas com as críticas em si, mas com a desaprovação de ex-jogadores que conhecem melhor do que ninguém a pressão do clube e, ainda assim, escolhem julgar.

Em essência, Evra criticou o clima de negatividade em torno dos comentários na TV ao explicar que a lógica da mídia moderna empurra ex-jogadores para opiniões mais duras, já que o apoio ponderado não repercute tanto quanto a indignação nem gera manchetes chamativas. Não é uma queixa nova no futebol, mas teve outro peso por vir de alguém que dividiu o vestiário com as pessoas de quem falava.

E ele foi além. Sugeriu que algumas dessas figuras deveriam ter mais cuidado, porque muitas delas também tiveram dificuldades como treinadores. Era o Evra de sempre: direto, pessoal e impossível de confundir. Não tentava discordar com diplomacia, mas expor o que considera a facilidade de criticar e reclamar de ex-companheiros de equipa.

Pode-se concordar ou não com o tom dele, mas a questão mais ampla é difícil de ignorar. O futebol está cada vez mais cheio de ex-jogadores cuja identidade após a carreira agora depende de emitir opiniões fortes todas as semanas. Isso pode ser útil. Mas também pode virar uma encenação de dureza, em que ser o crítico mais incisivo do ambiente passa a importar mais do que ajudar alguém a entender o que realmente está acontecendo em campo.

Os comentários de Evra sobre Carrick também soaram como uma reação à impaciência moderna em torno dos grandes clubes. Hoje, os treinadores são julgados por recortes. Uma semana pode parecer um mês. Dois maus resultados podem gerar uma crise. Três entrevistas desconfortáveis após o jogo podem virar uma narrativa de colapso. Evra pareceu exausto com esse ciclo.

Independentemente de Carrick ser ou não o homem certo, esse quase não é o ponto central. A mensagem de Evra foi clara: nem toda oscilação exige um funeral, e nem todo ex-jogador precisa agir como promotor. Ele pedia um pouco mais de lealdade e um pouco menos de teatro.

E há ainda o Arsenal, um clube que está contrariando a lógica nesta temporada da Premier League.

Evra diz que quer ver o Arsenal campeão, mas afirma que não se surpreenderia se o time voltasse a falhar na reta final, retomando a velha piada de que o clube é como a Netflix: é sempre preciso esperar pela próxima temporada. Ao mesmo tempo, admite que a vitória sobre o Brighton teve cara de resultado de campeão.

Esse é o estilo clássico de Evra: ele não resiste a uma alfinetada, mesmo quando tenta elogiar.

O ponto interessante é que ele não descartou propriamente o Arsenal. Também argumentou que, se quiser vencer, a equipa deve deixar de se preocupar com a estética e fazer o que for necessário, incluindo gerir melhor o jogo. Na visão dele, Mikel Arteta está ali para ganhar, não para agradar aos puristas.

Esse foi um dos principais pontos levantados por Evra na entrevista. Há anos, o Arsenal é avaliado não só pelos resultados, mas também pelo estilo de jogo. Sempre existiu esse peso extra: a ideia de que o time precisa vencer com beleza ou não vencer. Evra foi mais pragmático. Ele disse que nenhum torcedor do Arsenal vai devolver um título só porque ele veio com escanteios feios e pequenas faltas.

No entanto, mesmo ao elogiar, Evra ainda conseguiu irritar os torcedores do Arsenal. Mas esse não era o seu objetivo, e ele nunca disse que o Arsenal é fraco. O ponto é que o time está sob um tipo de pressão que expõe tudo. Quando afirma que eles podem amarelar, o que ele realmente quer dizer é que a pressão se tornou agora a principal história.

"Amarelar" é um daqueles termos carregados no futebol, muitas vezes usado de forma leviana, mas nas disputas pelo título ele ganha força porque toca diretamente o lado emocional do esporte. Não se trata apenas de tática. Trata-se de nervos, expectativas e da capacidade de um time manter a calma sob pressão.

Evra dá a entender que o Arsenal tem qualidade para vencer, mas também fragilidade suficiente para deixar todos nervosos. Em uma frase, isso resume a temporada do Arsenal até aqui.

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Uma das partes mais surpreendentes da entrevista foi a forma calorosa como Evra falou sobre o envolvimento de KSI com o Dagenham & Redbridge. Ele disse que KSI ama futebol, que pode fazer algo semelhante ao que Ryan Reynolds fez no Wrexham e que seria um proprietário sério, apesar da sua imagem pública. Para Evra, a ideia é simples: pessoas engraçadas também podem ser extremamente sérias quando o trabalho começa.

Essa avaliação ganhou ainda mais força porque a chegada de KSI ao Dagenham & Redbridge já foi tratada em outros veículos como um movimento real de entrada na gestão, com a ambição de tirar o clube das divisões inferiores e levá-lo a patamares mais altos. Reportagens da última semana o descreveram como acionista e parceiro estratégico, com o objetivo público de impulsionar a ascensão do clube.

O instinto de Evra neste caso provavelmente é mais apurado do que o da maioria. O futebol sempre teve um problema de elitismo sobre quem merece ser levado a sério. Se alguém vem do YouTube, do boxe, da música ou da cultura da internet, muitas vozes tradicionais do futebol torcem o nariz antes mesmo de essa pessoa fazer qualquer coisa. Evra parece rejeitar isso por completo.

Ele argumentou, em essência, que a fama moderna não significa automaticamente falta de seriedade. Na verdade, sugeriu o contrário. Alguém como KSI construiu uma carreira gigantesca ao entender atenção, negócios, público e persistência. Essas qualidades não garantem sucesso como dono de um clube de futebol, mas mostram que ele não deve ser descartado.

Evra também revela um traço muito moderno ao lidar com figuras de diferentes universos. Em certo sentido, ele pertence a uma geração mais antiga do futebol, mas entende personalidade, desempenho e construção de marca melhor do que muitos nomes tidos como tradicionais. Ele sabe que o esporte já não vive mais em uma caixa fechada: está online, em clipes, em personalidades e em comunidades de torcedores que pouco se importam se um dono de clube ficou famoso primeiro no Match of the Day ou no YouTube.

Ainda assim, Evra não deu a entender que queria ver o futebol transformado em puro espetáculo de influenciadores. É isso que torna sua observação sobre KSI mais interessante. Ele não está dizendo que o futebol deve virar um circo, mas que alguns nomes de fora merecem respeito porque realmente se importam e, com esse envolvimento aliado ao investimento, podem fazer um clube avançar.

Os adeptos de futebol costumam ser levados a escolher entre dois extremos: aceitar cada novo envolvimento de celebridades como sinal de progresso ou rejeitar tudo como algo artificial. A visão de Evra é mais seletiva. Ele parece aceitar investidores de fora trazendo dinheiro, energia e ambição, desde que estejam realmente a tentar construir algo sólido.

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Evra também analisou o Brasil sob o comando de Carlo Ancelotti, dizendo que a seleção já não reúne mais “galácticos” como antigamente, apontando Neymar como a principal referência se estiver em forma, e sugerindo que a força de Ancelotti como vencedor e estrategista ainda pode produzir um futebol de alto nível. Ao mesmo tempo, evitou colocá-la como favorita, numa avaliação realista e justa do momento atual da equipe nacional.

O Brasil ainda carrega o peso da camisa, a aura e esse impacto emocional imediato. Evra também falou disso, dizendo que as pessoas se alegram no momento em que veem o amarelo e verde. Mas admitiu que, pelos resultados recentes, é difícil colocá-lo no topo absoluto entre os favoritos.

O que ele parece confiar é na capacidade de Ancelotti de organizar uma equipe que talvez não seja tão naturalmente avassaladora quanto as antigas seleções brasileiras. O Brasil muitas vezes foi visto como uma nação de improviso, ritmo e alegria ofensiva sem fim. Ancelotti representa algo mais calmo, equilibrado e controlado. A sugestão de Evra é que isso pode ser exatamente o que a equipe precisa.

Não era nostalgia cega pelo velho Brasil, nem euforia vazia com o novo técnico. Era mais um otimismo pragmático. A seleção pode já não ter a mesma profusão de nomes lendários, mas um treinador que sabe montar uma estrutura em torno de jogadores decisivos ainda pode torná-la perigosa.

A parte da entrevista que provavelmente mais revela sobre o próprio Evra surgiu quando ele falou sobre a “americanização” do futebol inglês. Ele não se mostrou contra donos americanos em si. Na verdade, afirmou de forma explícita que novas figuras ricas podem trazer atenção, patrocinadores e dinheiro.

O que ele rejeitou foi a ideia de importar para a cultura do futebol artifícios típicos do esporte americano. Ele ironizou o conceito de um Hall da Fama, descartou líderes de torcida e fogos de artifício como atrações de dia de jogo, criticou o VAR como uma interferência ao estilo americano e afirmou que a antiga ideia de Todd Boehly de um Jogo das Estrelas simplesmente não se encaixa no futebol inglês.

Foi aí que a entrevista foi além do assunto do clube.

Evra fazia um argumento cultural. Dizia que o futebol não é apenas um produto, mas uma tradição, um ritual e um legado local.

É possível modernizar a gestão, mas, quando se começa a mexer na carga emocional do momento, quem esteve lá desde o início, apoiando o seu clube e o jogo como um todo, pode acabar se afastando.

Esse debate não vai desaparecer. O futebol inglês está mais rico, mais global e mais assistido do que nunca, o que naturalmente traz influência externa. Parte dessa influência é útil. Parte é inevitável. Mas há um limite em que a inovação começa a parecer figurino. Evra alertava para não ultrapassá-lo.

Não é difícil perceber por que seus comentários vão repercutir entre torcedores que já sentem que o futebol está sendo constantemente reembalado para outras pessoas. Os horários de início mudam. Os preços dos ingressos sobem. Os clubes viram máquinas de conteúdo. As rivalidades são diluídas em linguagem de marca. Estádios históricos se tornam cenário para vídeos de influenciadores. Nesse contexto, um ex-jogador dizer “por favor, não transformem isso em um show de fogos de artifício” soa como algo genuinamente humano.

A ironia, claro, é que o próprio Evra está longe de ser um tradicionalista discreto. Ele gosta das câmeras. Gosta de uma frase de efeito que viraliza. Construiu sua imagem após a carreira em torno de uma personalidade maior do que a vida. Mas talvez seja exatamente por isso que seu alerta soe tão real. Ele entende o espetáculo por dentro. Só não quer que o espetáculo substitua o esporte.

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