Toda a cultura do Chelsea alimenta a arrogância e a indisciplina. Dão a braçadeira a um jogador que cantou uma música racista e o zagueiro tem 50 pontos na carteira… não é surpresa que esse grupo de jogadores cheios de direitos acumule tantos cartões verme
Liam Rosenior entrou na sala de imprensa do Emirates Stadium no domingo com uma exasperação silenciosa evidente. Ele acabara de ver mais um jogador do Chelsea agir, mais uma vez, como uma criança mimada e receber mais um cartão vermelho, desperdiçando mais uma oportunidade de conquistar três pontos.
Ganhar algumas centenas de milhares por semana não compra inteligência, infelizmente, nem tampouco um senso de responsabilidade para com a equipe e os torcedores, e a expulsão de Pedro Neto no segundo tempo contra o Arsenal destacou-se por ser particularmente estúpida.
Dois cartões amarelos em três minutos — um por reclamar de forma amarga e insistente de uma falta que nunca existiu, e outro por um carrinho absurdamente fora de tempo em Gabriel Martinelli — é obra, mesmo para os padrões do Chelsea.
Como se não bastasse ter custado à sua equipa — que vinha jogando bem — a chance de virar sobre a magra vantagem do Arsenal, Neto ainda confrontou o quarto árbitro a caminho do túnel, o que pode render-lhe uma suspensão adicional. Ele também vai desfalcar o Chelsea no confronto crucial de quarta-feira contra o rival direto pelo top 4, o Aston Villa. Um trabalho ‘inteligente’ em todos os sentidos.
Nada disso é responsabilidade de Rosenior, o treinador do Chelsea, que herdou de Enzo Maresca um grupo excessivamente mimado e de rendimento abaixo do esperado. Vale lembrar que Maresca também foi expulso na vitória por 2 a 1 sobre o Liverpool, em outubro, elevando para 10 o total de cartões vermelhos da equipe nesta temporada.
Rosenior foi questionado se a resposta à epidemia de indisciplina do clube passaria por punições mais severas. “Há algo mais profundo que precisamos entender”, disse Rosenior. “Não se trata de punição, mas de encontrar a causa.”
Pedro Neto tornou-se o nono jogador expulso pelo Chelsea nesta temporada — além do cartão vermelho mostrado a Enzo Maresca por celebrar a vitória sobre o Liverpool em outubro

Posso dizer a ele o motivo e também onde procurar as respostas. De forma inconveniente, isso começa no topo do clube, com o coproprietário Todd Boehly. Se a conversa for sobre irresponsabilidade, ele também entra nessa conta.
Lembra quando ele e a Clearlake Capital assumiram o controle em 2022 e Boehly disse, numa conferência de ‘líderes de pensamento’ em Nova York, que esperava que ‘a Premier League aprendesse um pouco com os esportes americanos’?
A sua principal ideia, surpreendente pela originalidade fora do comum, era que o futebol inglês deveria organizar um Jogo das Estrelas. A melhor reação foi a de Jürgen Klopp. “Ele também quer trazer os Harlem Globetrotters?”, perguntou o então treinador do Liverpool.
Nessa altura, Boehly nomeou-se diretor desportivo interino e lançou-se numa desenfreada política de gastos. Há poucos dias, admitiu que assumiu o cargo «sem ter ideia do que faz um bom jogador de futebol, mas sabendo que, se o Manchester City o queria, então eu também o queria… era assim de simples».
É aí que começa a cultura de arrogância no Chelsea. Exatamente ali. No topo. Com quem define o pensamento. Uma cultura de falta de responsabilização. Uma cultura de achar que não há consequências para as próprias ações. E isso acaba se espalhando.
Apontado como um “thought leader”, Boehly gastou mais de £250 milhões em jogadores sem saber exatamente o que definia um bom atleta. Entre eles está Wesley Fofana, zagueiro contratado do Leicester City por £73 milhões e que, inevitavelmente, é um dos jogadores já expulsos nesta temporada.
Quer saber mais uma sobre Fofana? Ele tem mais pontos na carta de condução do que jogos disputados pelo Chelsea na liga. Mais pontos na carta do que o próprio Chelsea somou na Premier League esta época. É sério. Na última contagem, já eram 50.
“Reincidente” não chega nem perto de explicar a estupidez absurda desse sujeito. É tão ridículo que quase chega a ser engraçado. Até você ver as imagens de câmera veicular de Fofana dirigindo sua Lamborghini pelo acostamento — um tipo de condução que faz parecer um milagre ele ainda não ter matado ninguém — e tudo muda. E ainda se espera que alguém assim assuma responsabilidades dentro de um campo de futebol?
Entre as contratações de Todd Boehly está Wesley Fofana, zagueiro que custou £73 milhões ao Leicester City e que, inevitavelmente, é um dos jogadores expulsos nesta temporada

Mas o Chelsea tem uma cultura recente de recompensar jogadores por comportamentos reprováveis. Veja o caso de Enzo Fernández. O argentino, campeão do mundo, foi filmado no verão de 2024 entoando um cântico racista sobre jogadores da França e a sua herança.
A reação do Chelsea? Você adivinhou: ele usa regularmente a braçadeira de capitão. Não é exatamente uma forma convencional de ensinar alguém sobre responsabilidade por suas ações, mas tem sido o jeito do Chelsea. E isso se reflete no comportamento dos jogadores.
Fernández já recebeu sete cartões amarelos na Premier League nesta temporada. No domingo, foi advertido por atirar a bola com força no chão, em protesto contra uma decisão. Ele teve sorte de Rosenior não estar no comando quando cantou a sua música. “Se qualquer jogador, treinador ou técnico for considerado culpado de racismo, não deveria fazer parte do futebol”, disse recentemente o técnico do Chelsea.
Por enquanto, Rosenior anda a jogar uma espécie de «bate-na-toupeira». Todas as semanas surge um novo problema para resolver. No domingo, não foram apenas Neto e Fernández a fazer birra, como se o futebol lhes devesse algo melhor. Robert Sánchez também entra nessa equação.
Na era do goleiro que joga com os pés, Sánchez é tão fraco com a bola que se encaixa no clichê do jogador cujo segundo toque é um desarme. Ele também se enquadra no molde do jogador do Chelsea: a culpa é sempre de outra pessoa.
Assim, quando Jurrien Timber marcou o que acabou sendo o gol da vitória do Arsenal no meio do segundo tempo, Sánchez liderou os protestos furiosos do Chelsea. Os replays mostraram que não houve falta. O Chelsea protestava simplesmente porque o Arsenal teve a ousadia de marcar.
Sánchez reclamava porque, mais uma vez, tinha sido considerado insuficiente. Reclamou tanto que Neto acreditou que houvesse algo concreto e acabou recebendo o seu primeiro cartão amarelo — por reclamar de nada. É o Chelsea em microcosmo: a incapacidade de assumir responsabilidades, que se espalha como um contágio.
Rosenior é um cara inteligente. Ele sabe de tudo isso. Sabe que o Chelsea não pode continuar contratando jogadores como Fofana e Alejandro Garnacho, que transmitem energia negativa por todos os poros. E sabe que, em algum momento, se quiserem voltar a ganhar a liga, terão de deixar de ser uma casa de negociações e passar a contratar jogadores que sejam líderes.
A cultura da arrogância começa no topo, com os formadores de opinião. Uma cultura de falta de responsabilização. Uma cultura de acreditar que não há consequências para as próprias ações.

Enzo Fernández foi filmado cantando uma música racista com companheiros da seleção argentina — e o Chelsea reagiu ao torná-lo capitão um mês depois

Ele deve saber que o Chelsea foi pioneiro na ideia de vender a sua equipa feminina à própria empresa-mãe, a BlueCo, por cerca de £200 milhões em 2024 para cumprir as Regras de Lucro e Sustentabilidade da Premier League, algo que pode ser legal, mas dificilmente digno de admiração.
Ele sabe disso. Mas também sabe que o Chelsea tem cinco diretores esportivos e dois co-proprietários e, se algo dá errado, o técnico é demitido. Sem prestação de contas. Sem responsabilidade. É a cultura.
Salve a Hill Dickinson
Sou um assumido apaixonado por estádios, por isso não é surpresa que a minha primeira visita ao novo estádio do Everton, na semana passada, tenha sido uma experiência transformadora.
O novo Hill Dickinson Stadium do Everton prova que nem todos os estádios modernos de futebol precisam ser estruturas sem caráter

A construção e o design do Hill Dickinson Stadium, no coração da herança marítima de Liverpool, na zona dos docks, colocam o estádio no centro da identidade cultural da cidade — exatamente onde um clube de futebol deve estar.
O Everton também merece enorme crédito pelo design espetacular do estádio e pelo cuidado em preservar, em todo o entorno da arena, os vestígios da história dos antigos docks. É a prova de que nem todos os estádios modernos de futebol precisam ser estruturas sem identidade.
Faça uma viagem até lá, se puder. Faz bem para a alma.