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Rayan Cherki não 'insultou' ninguém — o futebol inglês precisa de mais da sua irreverência técnica

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Houve um tempo em que o rúgbi — até no mais alto nível — era marcado por brigas de verdade, cabeçadas ocasionais e até casos de dedadas nos olhos. Mas não se preocupe: sempre foi um esporte honrado, afinal o árbitro é chamado de ‘Sir’.

Não é incomum que um desporto tenha uma noção algo distorcida de decoro e moralidade. Após a final da Carabao Cup, era difícil encontrar um ex-jogador profissional que não criticasse os malabarismos de Rayan Cherki.

"Ficar embaixadinha com a bola daquele jeito é um insulto no futebol profissional", disse Alan Pardew. "Se você é jogador profissional, isso não pode acontecer."

Tudo bem, justo. Mas, para um futebolista profissional, embora as embaixadinhas sejam tratadas como um crime hediondo, eis o que NÃO está fora dos limites e o que NÃO é considerado um insulto.

Simulação para ganhar um pênalti. Fingir lesão para provocar a expulsão de outro profissional.

Reclamar escanteios e laterais quando se sabe que não são seus. Cera.

A maioria dessas jogadas envolve ser ‘esperto’ e faz parte do jogo, dizem os ex-jogadores que veem as embaixadinhas como uma afronta. E esses mesmos ex-profissionais aprovariam a reação de Ben White ao exibicionismo de Cherki.

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Talvez uma entrada dura em Cherki tenha convencido Tuchel de que White deveria ser perdoado por sua polêmica com a seleção inglesa e chamado de volta ao elenco. Porque certamente não foi pelo seu desempenho.

Wembley, claro, não é estranho aos malabarismos com a bola. No antigo Wembley, Jim Baxter entrou para o folclore escocês com seus toques no fim da vitória por 3 a 2 sobre a Inglaterra no Home Championship.

Naquele jogo, Baxter deu uma caneta em Alan Ball diante do banco da Inglaterra. “E, quando me virei, ele fez de novo”, brincou Ball, antes de classificar a atuação de Baxter como “tão boa quanto qualquer outra que já vi”.

Não se falou em insulto. Pep Guardiola também pareceu desaprovar Cherki, mas só por pouco tempo.

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E esperamos que isso não o desanime a fazer de novo. Porque, convenhamos, esta Premier League precisa de um ou dois jogadores fora do padrão.

Cherki se destacou em Wembley não apenas pelos dribles e firulas que lhe renderam reprovação e a entrada dura de Ben. Ele chamou atenção pela criatividade, pela coragem de arriscar e por fugir dos padrões — qualidades cada vez mais raras na previsível Premier League.

Quando Mohamed Salah anunciou sua saída iminente do Liverpool — e, provavelmente, da Premier League — surgiram muitos debates sobre sua posição entre os maiores de todos os tempos. E muito se falou sobre comparações estatísticas. Justo.

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Mas a categoria mais importante deveria ser a do ‘espetáculo’. Por quem você pagaria mais para ver jogar? Quem faz você levantar da cadeira? Quem faz você esquecer a rivalidade clubística? Quem arranca de você um olhar de espanto para o amigo ao lado?

Nesse contexto, para mim, Salah ocupava o terceiro lugar no ranking da Premier League, atrás de Thierry Henry e Kevin De Bruyne. Mas está cada vez mais difícil encontrar jogadores da Premier League capazes de fazer esse tipo de coisa.

Cherki pode se tornar um deles. Por isso, é melhor ignorar a forte reprovação que se seguiu ao seu gesto no estilo de Jim Baxter. A Premier League precisa de mais jogadores como Rayan Cherki.

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