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Patrick Dorgu: Em que posição o Manchester United deve utilizar o dinamarquês na próxima temporada?

Até Ruben Amorim deve reconhecer a ironia da transformação de Patrick Dorgu em um ala esquerdo devastador sob a tutela de Michael Carrick, com o jovem de 21 anos assinando duas atuações dominantes nas vitórias consecutivas sobre Manchester City e Arsenal.

Contratado junto ao modesto Lecce, da Serie A, na janela de transferências de janeiro do ano passado, Dorgu chegou com a missão de oferecer ao treinador português um ala esquerdo ‘especialista’, capaz de complementar a ameaça criada por Amad no flanco oposto. Acreditava-se que isso seria fundamental para destravar o criticado esquema 3-4-2-1.

E embora o internacional dinamarquês tenha tido um início promissor no Old Trafford, o seu rendimento rapidamente caiu na apatia que parece afetar todas as novas contratações de camisa vermelha, com exceção do incansável Bruno Fernandes.

Em novembro, ao explicar por que o United havia sofrido uma derrota humilhante por 1 a 0 em casa para um Everton com 10 jogadores, Amorim revelou que conseguia sentir a “ansiedade” de Dorgu sempre que o dinamarquês recebia a bola e defendeu que a equipe precisava de um ala esquerdo como Amad para evoluir.

As declarações foram consideradas explosivas para um treinador ao falar de um jovem jogador sob sua responsabilidade, especialmente alguém com menos de 12 meses de experiência na Premier League. Entende-se que a cúpula do clube reagiu negativamente, sobretudo tendo em conta a tradição histórica da instituição em lançar jovens talentos.

No entanto, Dorgu afirmou posteriormente que não levou as críticas para o lado pessoal, encarando-as como feedback construtivo e usando-as como combustível para melhorar a parte ofensiva do seu jogo — basta perguntar a Pep Guardiola ou Mikel Arteta se ele teve sucesso nisso. Após a saída explosiva de Amorim no início de janeiro, o técnico do sub-18, Darren Fletcher, assumiu o comando da equipe principal.

O ex-internacional escocês voltou imediatamente a um mais familiar 4-2-3-1 nos seus dois jogos no comando, uma mudança evidente. Menos clara, porém, foi a opção de lançar Dorgu como ponta esquerda dentro dessa estrutura, dadas as suas dificuldades para influenciar as partidas no terço final atuando como ala.

O natural de Copenhaga recompensou de imediato o seu treinador interino, ao fazer um cruzamento perfeito que resultou no segundo golo de Benjamin Sesko no empate por 2-2 com o Burnley, em Turf Moor. Seguiu-se uma dececionante eliminação na terceira ronda da Taça de Inglaterra frente ao Brighton — ou, mais precisamente, perante o pé direito de Danny Welbeck — no que viria a ser o último jogo de Fletcher, com Dorgu a ser reposicionado como lateral-esquerdo na derrota por 2-1.

Uma semana depois, Michael Carrick assumiu o comando como técnico interino, substituindo o ex-companheiro de equipe até o final da temporada.

O inglês de 44 anos voltou a utilizar Dorgu na ala, escalando-o pela esquerda nas vitórias sobre City e Arsenal — com o dinamarquês a marcar e a exibir-se a grande nível em ambos os jogos, longe de qualquer sinal de nervosismo. O seu remate poderoso no Emirates, que levou o United a um emocionante triunfo por 3-2, será candidato ao Golo da Temporada.

O bom momento de Dorgu foi travado pelo destino cruel, depois de sofrer uma grave lesão na coxa contra os Gunners, que deve afastá-lo por até dez semanas. No entanto, o selecionador da Dinamarca, Brian Riemer, trouxe uma atualização positiva nesta segunda-feira, revelando que há esperança de que o jogador de 21 anos volte antes do previsto.

Independentemente de quem a INEOS escolha como treinador principal permanente neste verão — seja Carrick ou uma contratação externa —, um sistema com linha de quatro defesas e extremos ofensivos deverá manter-se como o ‘modelo de jogo’ do United. Isso levanta uma questão interessante: qual é a melhor posição de Dorgu neste novo sistema?

Em quatro jogos antes da lesão, somou uma assistência e dois golos nas três partidas como extremo-esquerdo, e apenas uma eliminação na FA Cup atuando como lateral-esquerdo. A resposta é simples?

Não — para o United dar o próximo passo como equipe na próxima temporada, Dorgu precisa recuar para a lateral, permitindo a contratação de um ponta mais ofensivo para complementar Matheus Cunha. A alternativa — mantê-lo mais adiantado — deixará o elenco desequilibrado e afetará negativamente o desempenho coletivo.

É imperativo que o clube aponte neste verão para uma das principais opções pelo lado esquerdo, seja o jovem destaque do RB Leipzig, Yan Diomande, ou o habilidoso Iliman Ndiayde, do Everton. Há outros nomes no radar em Inglaterra, como Anthony Gordon, do Newcastle, ou Mateus Mane, do Wolves, mas os dois primeiros, na Alemanha ou em Merseyside, devem ser a prioridade.

As principais qualidades de Dorgu são a sua força física e a eficácia nos duelos. Ele reúne velocidade, força e porte físico, além de demonstrar uma impressionante capacidade de recuperar a bola. A aptidão para combinações rápidas, passes de primeira precisos e cruzamentos venenosos completa o perfil de um talento excecional como lateral-esquerdo ofensivo.

Falta-lhe técnica e capacidade de drible para prosperar como extremo, sobretudo contra blocos baixos — uma fragilidade significativa do United enquanto equipa. Em espaços curtos, é mais um trator do que um cirurgião; mais marreta do que bisturi. E a sua visão de passe está mais próxima de Phil Neville do que de Ryan Giggs.

Sob essa perspectiva, faz sentido que as duas melhores atuações de Dorgu com a camisa vermelha tenham acontecido em dérbis de alta pressão contra os maiores rivais do clube, já que tanto o Manchester City quanto o Arsenal procuram dominar a posse de bola. Em muitos momentos, o dinamarquês atuou mais como um lateral-esquerdo secundário para dar suporte a Luke Shaw, especialmente no Emirates, com liberdade para avançar ao ataque.

Teria sido interessante ver se Carrick manteria o mesmo onze inicial na semana seguinte para o confronto contra o Fulham — equipe de meio de tabela — em Old Trafford, caso Dorgu não tivesse sido descartado. Em seu lugar, Cunha entrou na equipe, marcou o segundo gol e apresentou um perfil completamente diferente pela ponta esquerda.

O internacional brasileiro rende mais atuando pelo centro, com preferência por partir da esquerda e infiltrar em diagonal, usando velocidade e força no coração da defesa adversária. Não é um ponta de origem, embora tenha qualidade para atuar nessa função.

No entanto, nesta fase da carreira de Shaw, marcada por lesões, o lateral de 30 anos já não consegue oferecer sobreposições constantes pelo lado esquerdo ao lado do seu parceiro. De facto, durante praticamente todo o período de Amorim no comando, ele foi utilizado como zagueiro, e não como ala, por não conseguir atender às exigências físicas da função.

Isso significa que, apesar de Shaw e Cunha serem técnicos de alto nível, o lado esquerdo do United perdeu eficácia desde a lesão de Dorgu, já que nenhum dos dois joga aberto para manter a largura como Amad e Diogo Dalot fazem pela direita. Se Dorgu estivesse apto para o jogo de amanhã contra o Crystal Palace, ele traria a força física e a mobilidade necessárias para avançar pelo corredor externo, enquanto o brasileiro de 26 anos infiltra por dentro, ajudando a dar mais equilíbrio à equipe.

A preferência de Cunha por atuar nos meio‑espaços no campo adversário é ao mesmo tempo uma força e uma fraqueza. É fundamental que o United contrate um jogador como Diomande — um driblador incisivo, que mantém a largura, com velocidade e potência para dominar um flanco inteiro sozinho — como alternativa a Cunha, criando assim diferentes opções ofensivas quando uma abordagem não funciona.

O United tem sido associado a uma possível contratação do lateral-esquerdo do FC Barcelona, Alejandro Balde. Um lado esquerdo com Balde apoiando Dorgu seria mais dinâmico no ataque, ou Dorgu avançando por fora de Diomande, com Cunha surgindo a partir do banco?

Além disso, reposicionar Dorgu como lateral-esquerdo permite gerir a rotação da única outra opção do elenco, Shaw. Isso é crucial, já que o calendário de jogos aumentará significativamente no próximo ano com o regresso às competições europeias — uma exigência que o físico de Shaw dificilmente consegue suportar da forma como, até agora nesta temporada, tem conseguido.

O futuro de Dorgu em Old Trafford será melhor aproveitado, tanto para o jogador quanto para a equipe, com foco no seu desenvolvimento como lateral ofensivo, e não como um ponta defensivo.

Aos 21 anos, o jogador tem sido comparado, em termos de perfil, ao astro do Paris Saint-Germain Nuno Mendes, amplamente considerado o melhor lateral-esquerdo do futebol mundial. O internacional português reúne uma combinação única de qualidades físicas e técnicas, com capacidade para decidir partidas no campo adversário.

Ainda assim, não há uma única pessoa em Paris ou em Lisboa que queira ver o jogador de 23 anos atuar como ponta esquerda, apesar dessas qualidades. O mesmo se aplica a Dorgu, cujo conjunto de atributos se encaixa perfeitamente nas exigências de um lateral ofensivo, além de responder às carências do elenco do United.

Imagem em destaque: Justin Setterfield/Getty Images

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