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OLIVER HOLT: Já vi o suficiente. Chegou a hora de o Manchester United entregar o cargo de treinador a Michael Carrick AGORA, após sua revolução silenciosa — e eis por que os fracassos de Ole Gunnar Solskjaer nessa função são irrelevantes

A mais recente edição do influente fanzine do Manchester United, United We Stand, era vendida do lado de fora de Old Trafford na manhã de sábado. A capa destacava o rosto do técnico da equipe principal, com a frase: ‘Carrick frio, calmo e sereno’.

No fim da tarde, enquanto os últimos torcedores deixavam o estádio pela Warwick Road em direção ao ponto de bonde, o técnico do United conduziu a equipe à quarta vitória seguida na liga em quatro jogos no comando, e Old Trafford voltou a ter clima de carnaval.

A transformação promovida por Michael Carrick no clube desde que assumiu o comando em 13 de janeiro tem sido impressionante. Ele liderou uma revolução silenciosa. Frio, calmo e seguro, devolveu a confiança ao time e à torcida ao escalar os jogadores em suas melhores posições e ajustar o esquema à qualidade disponível no elenco.

Isto foi mais do que o tradicional impacto de um novo treinador: foi um salto. Interinos até podem começar em alta, mas poucos o fazem vencendo em sequência o Manchester City, força dominante do futebol inglês na última década, e o Arsenal, melhor equipa da Europa.

Carrick já melhorou o rendimento de alguns jogadores. Kobbie Mainoo, deixado de lado sob o comando de Ruben Amorim, parece melhor do que nunca desde que voltou à equipe. Agora, certamente, precisa entrar na disputa por uma vaga na seleção da Inglaterra neste verão.

Bruno Fernandes vem sendo o melhor jogador do United há algum tempo, mesmo atuando fora de posição. Agora, com Carrick adiantando seu posicionamento, ele tem sido ainda mais decisivo. Matheus Cunha e Bryan Mbeumo mostram ser talentos realmente empolgantes. Amad Diallo acrescentou mais responsabilidade ao seu jogo.

Michael Carrick mudou completamente a temporada do Manchester United ao vencer seus primeiros quatro jogos como técnico interino

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A vitória por 2 a 0 sobre o Tottenham no sábado deixou o United a três pontos do terceiro lugar

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Carrick fez tudo sem alarde nem exibicionismo. Agiu sem buscar os méritos nem colocar o foco sobre si. Também alertou para que ninguém se empolgue demais com uma amostra ainda pequena de jogos e evitou responder se gostaria de assumir o cargo em definitivo.

Informações internas do clube apontam a mesma cautela. Segundo relatos, Sir Jim Ratcliffe e seus principais dirigentes já iniciaram a busca por um nome de longo prazo para substituir Amorim, cujo período no cargo fica cada vez mais pressionado a cada dia em que Carrick leva um clima mais leve aos corredores de Old Trafford.

Dizer que o United já iniciou a busca por um substituto para Amorim parece uma medida prudente e bem planejada, e é difícil culpar a diretoria do clube pela cautela após os erros desastrosos cometidos por Ratcliffe e sua equipe executiva à frente das operações de futebol.

Mas agora a solução para a busca está bem diante deles. O clube merece crédito por apostar em Carrick como técnico interino, mas, após a transformação que ele promoveu, precisa agir com decisão, aproveitar o embalo que enfim tomou conta da equipe e efetivá-lo no cargo imediatamente.

Esqueça a ideia de esperar até o verão. Isso pode dar a impressão de que há dúvidas sobre Carrick. Pode parecer também que você acredita haver uma opção melhor que ficará disponível depois da Copa do Mundo. E isso corre o risco de fazer com que a única boa decisão tomada se perca em meio à confusão, à controvérsia e ao caos.

A ideia de esperar até o verão parece razoável até ser analisada. Esperar pelo quê? Por quem? Por Oliver Glasner, favorito das casas de apostas para assumir após Carrick, técnico do Crystal Palace, que fez um bom trabalho em Selhurst Park, mas viu sua equipe passar 12 jogos sem vencer até bater o Brighton no domingo, ser eliminada da FA Cup pelo Macclesfield e cair à beira da luta contra o rebaixamento?

Thomas Tuchel será o próximo favorito nas casas de apostas? O treinador é brilhante, disso não há dúvida. Mas o United já desperdiçou uma oportunidade de contratá-lo e não há como fazê-lo neste verão sem arrastar o clube para uma grande turbulência.

Caso tenha esquecido, Tuchel comandará a Inglaterra nesta Copa do Mundo de verão, torneio em que muitos apontam a seleção como favorita ao título. A final será em 19 de julho, um mês antes do início da temporada da Premier League.

Carrick já superou Manchester City, Arsenal e Tottenham em seu breve período no comando

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Thomas Tuchel (à esquerda) não pode ser visto a negociar com o United enquanto ainda for selecionador da Inglaterra, enquanto os fracassos de Ole Gunnar Solskjaer (à direita) não podem ser atribuídos a Carrick

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Então, como isso poderia funcionar? O United teria de acertar a nomeação de Tuchel antes do início da Copa do Mundo, e a história mostra que, no momento em que vazasse a notícia de que Tuchel sequer estava em conversas com o United, sua posição como técnico da Inglaterra se tornaria insustentável.

Os ingleses não costumam encarar bem esse tipo de situação. Mas os espanhóis também não. Quando o técnico da Espanha, Julen Lopetegui, acertou com o Real Madrid para assumir antes do início da temporada 2018-19, foi demitido pela Federação Espanhola de Futebol na véspera da Copa do Mundo daquele verão.

Esse é o tipo de caos que o United provocaria se avançasse por Tuchel. O mesmo valeria caso optasse por Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira, ou Julian Nagelsmann, que deve comandar a Alemanha nos Estados Unidos, México e Canadá dentro de alguns meses.

E também não me citem Ole Gunnar Solskjaer. Não há lógica no argumento de que, só porque Solskjaer começou muito bem como interino e depois fracassou, o mesmo vá acontecer automaticamente com Carrick.

São treinadores diferentes, com percursos, métodos e princípios distintos. No futebol, não há garantias: um clube que viu Louis van Gaal, José Mourinho, Erik ten Hag e Amorim deixarem a equipa desgastados e amargurados sabe disso melhor do que ninguém.

O impacto de Carrick levou o United ao quarto lugar na tabela. A visita ao West Ham na noite de terça-feira parece agora bem mais complicada do que seria há algumas semanas. O West Ham também vive bom momento e pode impor a primeira mancha no retrospecto de Carrick. Isso, porém, não deve mudar nada: Carrick já mostrou o suficiente para merecer mais tempo no cargo.

Chegou a hora de Ratcliffe e sua equipe agirem. Por que ignorar as evidências diante dos próprios olhos? Por que virar as costas para o que Carrick já provou?

Eles acertaram ao recorrer a Carrick. Não estraguem isso agora, justamente quando surge uma luz no fim do túnel.

Carrick já mostrou o suficiente para provar que merece mais tempo no cargo

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A direção do United acertou ao recorrer a Carrick. Que não estrague isso agora, justamente quando surge uma luz no fim do túnel

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O VAR acertou ao anular o belo gol caótico do City

Houve uma beleza hipnotizante no caos que marcou o fim do jogo entre Liverpool e Manchester City no domingo, mas, para muitos, ela foi manchada pela intervenção do VAR ao anular o que seria o terceiro gol dos visitantes.

Compartilho parte dessa frustração. Num esporte que vem se afastando de sua torcida mais fiel e se tornando cada vez mais sem graça e mais corporativo, houve algo de maravilhosamente caótico e livre na sequência em que Dominik Szoboszlai puxou Erling Haaland, e Haaland puxou Szoboszlai, enquanto ambos perseguiam uma bola que seguia lentamente em direção ao gol do Liverpool.

Minha reação inicial também foi lamentar a falta de bom senso na arbitragem e desejar que o árbitro Craig Pawson simplesmente validasse o gol. Mas, por mais que às vezes se queira o contrário, o futebol não deve ser uma anarquia.

Mesmo nos velhos tempos antes do VAR, ainda havia regras. O árbitro ignorou a falta de Szoboszlai sobre Haaland e deu vantagem. Acertou naquele momento. Até onde se deve permitir que uma sequência de faltas continue?

Mesmo nos velhos tempos antes do VAR, as regras já existiam — e foi por isso que Erling Haaland teve de ser punido por puxar Dominik Szoboszlai

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Tenho certeza de que você também percebeu que, depois que a bola cruzou a linha, Szoboszlai se levantou de um salto e começou a reclamar com veemência com o árbitro Craig Pawson. Presumo que ele estivesse assinalando ter sofrido falta de Haaland. Se Pawson, ou o VAR, não tivesse marcado a falta, sua omissão teria alimentado teorias da conspiração sobre arbitragem favorável ao Manchester City.

Passei a detestar o VAR, não por causa dos impedimentos marcados por centímetros, mas porque ele tira a espontaneidade das comemorações — embora, mesmo nesse contexto, haja momentos em que o árbitro precisa intervir, ainda que ninguém queira isso.

Às vezes, as regras anulam grandes gols. Às vezes, impedem o caos em ebulição. Gostaríamos que fosse diferente, mas é para isso que elas existem.

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