O que acontece se o Irã se retirar da Copa do Mundo de 2026?
Após ataques coordenados dos EUA e de Israel ao Irã, que teriam matado o líder supremo aiatolá Ali Khamenei e provocado ataques de mísseis retaliatórios em todo o Oriente Médio, a participação do Irã na Copa do Mundo da FIFA de 2026 está subitamente em dúvida.
O presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, sugeriu publicamente que participar de um torneio coorganizado pelos Estados Unidos pode agora ser “inadequado”.
– sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
O Irã já está classificado e foi sorteado no Grupo G ao lado de Egito, Bélgica e Nova Zelândia. O plano é estabelecer a base de treinos em Tucson, no Arizona. Dois jogos da fase de grupos serão disputados em Los Angeles, no SoFi Stadium, enquanto o terceiro, contra o Egito, em Seattle, no Lumen Field, gerou controvérsia.
Se Teerã se retirar, a FIFA terá de nomear um substituto. A decisão não só redesenharia o Grupo G como também mudaria, da noite para o dia, planos de viagem, demanda por ingressos e mercados de televisão. Para os torcedores em Los Angeles, ficaria mais perto de casa.
A partida marcada entre Irã e Egito em 26 de junho, em Seattle, já gerou controvérsia. Os organizadores locais associaram o dia do jogo às celebrações do Orgulho. Irã e Egito, países onde a homossexualidade é criminalizada, manifestaram objeções.
Seattle afirmou que sua programação seguirá normalmente. A FIFA acompanha a situação. Se o Irã se retirar, essa tensão específica desaparece, mas o atrito cultural mais amplo permanece.
O torneio de 2026 foi concebido como uma celebração intercontinental. Agora, semanas antes do pontapé inicial, passa a refletir divisões diplomáticas e sociais.
O sul da Califórnia abriga a maior diáspora iraniana fora do Irã. Westwood. Beverly Hills. Encino. Tarzana. Livrarias persas ao lado de balcões de sushi. Rádio em farsi no FM. O apelido “Tehrangeles” é uma realidade demográfica, não um termo de marketing.
Estimativas apontam que o número de residentes de ascendência iraniana na Grande Los Angeles varia entre 130 mil e 220 mil. A comunidade não é monolítica: inclui judeus iranianos, armênios, azerbaijanos, profissionais seculares, monarquistas, reformistas e famílias que deixaram o país após 1979. Uma lição repetida ao longo do tempo é simples: quando se trata dos iranianos, generalizações costumam falhar.
Para muitos iraniano-americanos, o país representa memória e herança cultural, separado de seu governo. Uma aparição da seleção nacional em Los Angeles não seria automaticamente vista como endosso político, mas sim como reconhecimento cultural.
Um iraniano-americano de segunda geração foi direto: “Se eles marcam, eu comemoro. Não estou torcendo por um regime. Estou torcendo pelo lugar de onde minha família vem.” Essa divisão entre orgulho e frustração se repete em lares por toda a cidade.
É por isso que isso dói mais em Los Angeles.
A seleção do Irã frequentemente atuou em tensão com o Estado. O exemplo mais marcante continua sendo 21 de junho de 1998, em Lyon. O Irã venceu os Estados Unidos por 2–1 na Copa do Mundo. O gol de cabeça de Hamid Estili. A arrancada de Mehdi Mahdavikia. Antes do pontapé inicial, os jogadores trocaram flores.
Durante noventa minutos, o futebol criou um espaço que a política raramente permitia.
Outras vitórias, incluindo o triunfo por 2–0 sobre o País de Gales em 2022, foram carregadas de emoção. Nenhuma se comparou a 1998 em termos de simbolismo.
Quase três décadas depois, o Irã pode nem pisar em solo americano.
Os regulamentos da FIFA permitem uma substituição. Os Emirados Árabes Unidos foram citados em reportagens ligadas aos caminhos de qualificação asiáticos, embora nenhuma decisão seja oficial. A dinâmica regional acrescenta mais complexidade.
No plano competitivo, o Grupo G muda. A preparação da Bélgica é alterada. A narrativa do Egito muda. As projeções comerciais são ajustadas.
Em Los Angeles, muda algo menos mensurável.
Inglewood vai sediar oito partidas, incluindo a estreia dos EUA, com cobertura da mídia global e vendas recordes de ingressos.
Um jogo do Irã em Los Angeles acrescentaria mais uma camada: bandeiras de uma pátria que muitos deixaram para trás, crianças fazendo perguntas silenciosas sobre o hino, orgulho entrelaçado com inquietação.
Los Angeles entende identidades hifenizadas — mexicano-americana, coreano-americana, iraniano-americana. A Copa do Mundo na cidade sempre foi mais do que apenas esporte. Os Jogos Olímpicos de 1984 tiveram subtextos semelhantes, com ausências da Guerra Fria a redefinir o cenário. A cidade tem experiência em sediar grandes espetáculos em meio a tensões.
A posição da FIFA permanece inalterada. A entidade espera que todas as seleções qualificadas participem e reforça a importância da segurança. O otimismo institucional continua.
A realidade política é menos previsível. Para a federação iraniana, enviar uma equipe aos Estados Unidos após um confronto militar direto implica riscos internos. Para os jogadores, o cálculo é pessoal: lealdade, medo, família, reputação.
A Copa do Mundo de 2026 foi promovida como um símbolo de união além das fronteiras. Quarenta e oito seleções. Três países-sede. Oportunidades ampliadas.
Mas a unidade depende da participação.
Em 1998, o futebol suavizou um congelamento diplomático. Em 2026, pode não ter a mesma oportunidade.
Los Angeles está pronta. O estádio está preparado. A diáspora acompanha.
Se o Irã entrar em campo no SoFi Stadium, o significado será multifacetado e complexo. Se não entrar, a ausência falará com a mesma força.