Max Dowman, um recorde da Premier League e 22 minutos que mudaram a corrida pelo título
Aqueles momentos que já se sabe que serão lembrados — talvez na corrida pelo título, quase de certeza na ascensão de um dos maiores talentos do futebol mundial. Nem é preciso dizer “guardem este nome”: Max Dowman está por todo o lado, como esteve numa atuação de 22 minutos que também o tornou o mais jovem marcador da história da Premier League.
Que um talento assim assine uma estatística dessas parece apropriado, embora isso seja o menos importante desta história.
Não se trata apenas dos números, por mais impressionantes que sejam os 16 anos e 73 dias de Dowman, dada a sua qualidade. Tratava-se da sensação que se sentia num Emirates Stadium em êxtase — e aliviado — após esta vitória tardia do Arsenal por 2 a 0 sobre o Everton.
Sorridente, Mikel Arteta admitiu depois que teve “a sensação de que aquele era o momento dele” ao ver Dowman nos treinos desta semana. E, pouco antes de o adolescente entrar em campo, a mensagem do treinador já refletia esse sentimento.
"Vá lá, faça o seu jogo e ganhe a partida para nós."

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Dowman arranca em velocidade para marcar o segundo gol do Arsenal
E como o Arsenal precisava que ele fizesse isso.
O momento — e o alívio — foi ainda mais especial por tudo o que veio antes, em meio a tantas provações e dificuldades.
Pouco antes de Dowman dar ao Arsenal a objetividade que lhe faltava, uma jogada pareceu resumir tudo o que estava errado com a equipe; seria o lance apontado caso o jogo tivesse terminado em 0 a 0.
Aos 87 minutos, David Raya tinha a bola nos pés, mas parecia não encontrar sequer uma opção de passe. O goleiro teve de tocar para o lado, algo que o Arsenal fez repetidamente ao longo de 87 minutos profundamente frustrantes. Havia tensão em tudo o que a equipe fazia. Faltavam intensidade e senso de urgência. Dava para ver a vontade de resolver a situação, mas isso acabou sendo prejudicial. O resultado foram chutes apressados de longa distância que saíam pela linha de fundo, ou investidas impacientes em que os jogadores cometiam faltas desnecessárias ao tentar, de qualquer forma, empurrar o jogo para a frente.
Acima de tudo, o Arsenal simplesmente não conseguiu superar o Everton.
Eberechi Eze foi persistente e deu dois passes brilhantes em profundidade, mas faltava sempre algo — ou melhor, havia sempre um jogador do Everton no caminho.
Arteta admitiu que estava "empurrando com cada centímetro do meu corpo para a bola entrar, e de alguma forma marcámos um golo".

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Max Dowman comemora após marcar o segundo gol do Arsenal (Getty Images)
David Moyes armou muito bem a sua equipa, que conseguiu transformar o jogo num duelo físico. Isso aconteceu apesar da surpreendente ausência de James Tarkowski, sobre a qual o treinador limitou-se a dizer duas vezes que “não tinha nada a acrescentar”. Ficou alguma dúvida no ar, mas os seus jogadores mostraram-se claramente prontos para a batalha. Foi uma verdadeira luta.
Normalmente, não se diria que era o momento ideal para um jovem entrar, mas foi exatamente isso.
Quase de imediato, Dowman começou a recuperar bem a bola, roubando-a dos jogadores do Everton e passando por eles. Mais importante ainda, também cortava para dentro. O Arsenal voltou a criar perigo pela primeira vez desde os minutos iniciais da partida.
Arteta admitiu isso depois.
“Não foi só pelo gol que ele marcou. Acho que ele mudou o jogo. Cada vez que tocava na bola, fazia algo acontecer. Parecia que éramos mais perigosos. Fazer isso nessa idade, neste contexto, sob essa pressão, simplesmente não é normal.”
O Arsenal precisava de algo fora do comum. Aos 87 minutos, Dowman fez o cruzamento que faltava à equipa — uma bola que provocou indecisão na defesa do Everton pela primeira vez.
Jordan Pickford, que vinha protagonizando sua própria disputa pela defesa da temporada, saiu para cortar o cruzamento. Foi seu primeiro erro. Gabriel Martinelli ficou livre para rolar para Viktor Gyokeres apenas empurrar para o gol.
Final tão fácil depois de tanta dificuldade para chegar lá. Parece quase surreal.
O que isso significou de fato pôde ser visto e ouvido nas comemorações, com o próprio Arteta saltando de alegria.

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Viktor Gyokeres colocou o Arsenal na frente aos 89 minutos (Andrew Matthews/PA) (PA Wire)
Por pior que o Arsenal tenha estado, isso pode ter um efeito transformador.
"Então você se vira e vê o banco e aqueles olhos cheios de felicidade, de alegria, que quase não acredita no que acabou de acontecer", disse Arteta.
Pouco depois, Dowman realizou o próprio sonho.
Com o Arsenal a resistir com tudo — e Piero Hincapie a celebrar uma entrada dura nos minutos finais que poderia ter resultado em penálti — o Everton ganhou um escanteio. Desta vez, Pickford correu para a outra área… apenas para permitir aquela abertura.
Com o Arsenal tentando afastar a bola a todo custo, ela acabou sobrando para Dowman. Diferentemente dos companheiros, o jovem não se limitou a rifá-la nem se precipitou na finalização, como muitos fariam. Em vez disso, mostrou calma e qualidade para passar por Kiernan Dewsbury-Hall e seguir em frente, arrancando desde o próprio campo até marcar na área do Everton.
"Nada parece abalá-lo", disse Arteta.
A expectativa aumentava.

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Técnico do Arsenal, Mikel Arteta, diz que um ‘pressentimento’ o levou a colocar Max Dowman em campo
"Dava para sentir que ele estava — oh — ganhando embalo, ganhando embalo", sorriu Arteta. "E sem goleiro ali, ia acontecer, ia acontecer. Foi incrível. Estava tão barulhento, tão cheio de energia."
"Que momento."
Quanto ao que vem a seguir, já se falava de um Mundial, com início na terça-feira.
"Calma!", riu Arteta.
Depois disto, será difícil para qualquer pessoa no Arsenal fazer isso.
No entanto, Dowman dá sinais de que vai continuar. Foi aqui que ele realmente começou, e isso ainda pode revelar-se decisivo para o Arsenal na corrida pelo título.