Por que Mohamed Salah garantiu seu lugar entre os cinco maiores jogadores da história do Liverpool, escreve OLIVER HOLT — e como o clube manterá seu rei egípcio por perto muito depois de sua despedida
Onde você estava quando soube que Bill Shankly estava deixando o cargo? Em Merseyside, os mais velhos ainda ouvem essa pergunta de vez em quando. E as imagens de Tony Wilson falando ao vivo com crianças numa esquina perto do St George’s Hall, no Granada Reports, ainda são exibidas, com a câmera registrando a perplexidade em seus rostos jovens.
Há algo de perturbador nas imagens de Kenny Dalglish, de olhar vazio e fixo no chão, quando foi anunciado numa coletiva de imprensa, em 1991, que ele havia renunciado ao cargo de treinador do Liverpool. Jürgen Klopp falou diante das câmeras no centro de treinamento do clube para comunicar sua saída. Também houve choque absoluto com a notícia.
Liverpool, uma cidade que se vê como outsider e empurrada à margem pelo establishment, mantém seus heróis por perto. Por isso, cada despedida virou um ritual de tristeza e gratidão. E assim será com Mohamed Salah, agora e quando ele deixar o clube ao fim desta temporada.
O anúncio de Salah foi feito em um vídeo de dois minutos, aberto com a narração de um de seus 255 gols pelo clube — marca que o coloca em terceiro lugar na lista histórica, atrás apenas de Ian Rush e Roger Hunt. Se Dalglish foi, e sempre será, o Rei em Merseyside, Salah será para sempre o Rei Egípcio.
Se a notícia de sua saída provoca tristeza, causa menos surpresa. Parte dos torcedores do Liverpool e alguns analistas já vinham falando dele no passado em boa parte desta temporada, já que ele não parecia mais o jogador de antes. Ele sofreu com a transição após a saída de Klopp, acelerada nesta temporada. Tudo indica que escolheu o momento certo para partir.
Alguns já sentiam que o anúncio estava por vir. Salah entrou em cena com uma caneca na mão, colocou-a no chão, sentou-se e suspirou. “Olá a todos”, disse ele ao começar a falar sobre o fim iminente de sua trajetória de nove anos em Anfield. “Infelizmente, o dia chegou.”
Mohamed Salah deixará o Liverpool como uma lenda incontestável, mas seu anúncio não causou choque, apenas tristeza

Aos 33 anos, ele vinha escolhendo o momento de se despedir após a saída, em 2024, do técnico que marcou sua trajetória, Jürgen Klopp

Esse dia sempre chega, por maior que tenha sido um jogador. Chegou para Dalglish, para Steven Gerrard, para Graeme Souness, Alan Hansen e Phil Thompson. O nome de Salah merece ser citado ao lado de todas essas lendas do Liverpool. Ele pertence a esse grupo.
Comparações entre diferentes épocas são difíceis, mas a maioria colocará Salah entre os cinco maiores jogadores da história do Liverpool. E, para o clube mais vitorioso deste país, isso é um feito e tanto.
Mas Salah preencheu todos os requisitos para entrar nesse panteão. Ele conquistou inúmeros prêmios individuais, Chuteiras de Ouro e distinções de Jogador do Ano, mas foram os títulos vencidos com sua equipe que o elevaram a esse patamar.
Qualquer jogador do Liverpool que aspire a ser lembrado entre os maiores precisa ter uma medalha de campeão da Taça dos Campeões Europeus ou da Liga dos Campeões na sua coleção. Salah conseguiu isso. Ele também marcou na final de 2019: o penálti que colocou o Liverpool em vantagem por 1 a 0 sobre o Spurs, em Madrid, no segundo minuto.
Ele também conquistou a Premier League com o Liverpool duas vezes, em 2019-20 e 2024-25, e será sempre lembrado como um dos maiores jogadores da era Jürgen Klopp. Sua saída iminente representará a perda de um dos últimos vínculos com o período dourado do alemão em Anfield. Entre os principais astros, agora restam apenas Alisson e Virgil van Dijk.
Salah foi um jogador de brilho individual, mas também fez parte de um dos maiores ataques que o futebol inglês já viu. O Liverpool já teve Toshack e Keegan, além de Dalglish e Rush. O Manchester United contou com Best, Law e Charlton. E também com Cole e Yorke.
E o Liverpool tinha Salah, Sadio Mané e Roberto Firmino. Foi um trio mágico, com três jogadores que se completavam perfeitamente. Firmino era o articulador, um jogador de inteligência brilhante, que recuava, encontrava espaços e sabia instintivamente como acionar seus companheiros velozes.
Mané e Salah destroçaram as defesas adversárias. Salah esbanjava velocidade, tinha um controle de bola hipnotizante e finalizava com precisão e beleza. Seu padrão de jogada era conhecido, mas, por mais previsível que parecesse, os defensores não conseguiam pará-lo.
Salah será lembrado como um dos maiores jogadores da história do seu clube e da Premier League

Ao lado de Sadio Mané e Roberto Firmino, ele formou um formidável trio de ataque sob o comando de Klopp

Recebia a bola pela direita e encarava um indefeso lateral-esquerdo. Cortava para dentro e, por via das dúvidas, ainda deixava mais um para trás. Depois, soltava um remate que passava pelo guarda-redes e morria no ângulo.
Se houvesse apenas um momento para recordar Mohamed Salah com a camisa do Liverpool, seria o lance genial que ele produziu contra o Manchester City em outubro de 2021. Tinha de ser contra o City. Os duelos com eles ajudaram a definir Salah e o Liverpool.
Aconteceu aos 76 minutos de um jogo da liga em Anfield. Curtis Jones enfiou a bola para Salah, mesmo sob marcação cerrada de João Cancelo. Salah escapou de Cancelo como num passe de mágica. Bernardo Silva tentou desarmá-lo, mas o egípcio o deixou para trás com um giro e drag-back genial, que o fez cair sentado no gramado.
Aymeric Laporte foi o próximo a tentar pará-lo, mas Salah o deixou para trás com um drible desconcertante. Ainda tinha Ederson pela frente e finalizou com o pé direito, o mais fraco, batendo cruzado para o canto oposto. Foi um gol genial. Não há outra palavra.
Houve momentos nos anos de Salah no Liverpool em que ele alcançou um patamar raro, atingido nos tempos modernos apenas por Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Houve fases em que era imparável. E houve períodos em que era incontestável que ele era o maior talento da Premier League.
Ele foi, sem dúvida, o maior talento africano a brilhar no futebol inglês e, se há alguma surpresa, é não ter conquistado mais prémios individuais no cenário mundial. Como muitos outros grandes jogadores, teve o azar de atuar na era de Messi e Ronaldo nesse aspeto.
Segundo Salah, este foi o primeiro passo de sua despedida. Haverá mais homenagens e uma série de cerimônias para marcar sua saída. Também crescerão as especulações sobre quem o Liverpool contratará para substituí-lo.
Uma resposta é que o clube pode já ter contratado o substituto antes da saída de Salah, e que Alexander Isak, quando estiver em forma, assumirá esse papel. Outra resposta é que será muito mais difícil do que isso substituir o Rei Egípcio.