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O Nottingham Forest não precisa se desesperar. Sentei-me com os torcedores do Tottenham em Anfield, e o gol de Richarlison não engana ninguém: havia apenas frustração e raiva diante da falta de consistência de Igor Tudor e sua equipe

Foi um gol que fez os torcedores do Nottingham Forest voltarem à névoa de ansiedade que pairou durante toda a temporada: o gol tardio de Richarlison, que mudou a narrativa, a 160 km dali em Anfield, levou à conclusão de que o Tottenham havia respondido ao pedido de Igor Tudor por mais ‘luta’. Em certo sentido, eles haviam empatado por causa dele.

Do meu lugar no setor da torcida do Spurs na tarde de domingo, a realidade foi bem diferente.

O empate tardio levou os torcedores do Tottenham presentes ao delírio, atirando-se contra as barreiras e entoando ‘We are Tottenham’. Mas ninguém deve se deixar enganar.

Uma tarde no setor visitante expôs o que a gestão escandalosa do Tottenham Hotspur criou: um ambiente sem alegria, tomado por frustração e raiva, por vezes descambando para fúria aberta.

A tarde de domingo não começou assim. Antes, nas áreas de circulação do estádio, havia o otimismo pré-jogo e os cânticos familiares a quem acompanha quase qualquer equipe.

Norte-londrinos, escandinavos e americanos — alguns com camisas retrô, outros muito bem vestidos, alguns com filhos, outros já na cerveja desde cedo e bêbados antes do pontapé inicial — todos partilhavam uma fé frágil. Mas o sentimento era superficial, e o ambiente logo se tornou opressivo e pesado.

O empate tardio de Richarlison no domingo levará alguns a concluir que o Tottenham respondeu às exigências de Igor Tudor por mais 'garra'. A realidade, porém, é bem diferente

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Apesar de toda a gesticulação e dos gritos de Tudor, os jogadores do Spurs não lhe deram a mínima em Anfield

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“Lá vai”, disse alguém atrás de mim quando Florian Wirtz lançou Cody Gakpo em direção ao gol diante da massa de torcedores da Kop, no outro lado do campo.

Após o seu erro incrível — que ditou o tom da tarde do Liverpool — ouviu-se brevemente o coro: 'Vocês são o Tottenham disfarçado?'.

Quando uma torcida se sente destruída, os reveses apenas confirmam o que já se esperava e ninguém vê uma saída. À medida que o Liverpool assumia um domínio confortável, o barulho nas arquibancadas diminuía. Então veio o gol de Dominik Szoboszlai — em uma cobrança de falta que grande parte da torcida do Spurs considerou inexistente — e o silêncio desolador e gélido que se seguiu à sua inevitabilidade sombria.

Talvez ajudasse se alguém no elenco ao menos transmitisse a impressão de querer liderar. Na prática, não havia ninguém cobrando nada de ninguém.

À beira do campo, Tudor gesticulava e gritava bastante, mas, talvez sem surpresa diante da forma como criticou publicamente seus jogadores e humilhou o goleiro Antonin Kinsky, os jogadores do Spurs simplesmente o ignoraram.

Por instantes, ecoou o cântico ‘Isso aqui é uma biblioteca?’ — reflexo de um Anfield que também vive um momento sem alegria. Mas logo se desfez a ideia de que a torcida visitante do Tottenham chegaria disposta a mostrar a garra e o espírito de luta que faltam ao time.

Os lugares vazios indicavam que a carga de ingressos destinada à torcida visitante não se esgotou, ou que quem pagou preferiu não viajar após o desastre na Espanha na semana passada, deixando a equipe de Tudor em desvantagem de 5 a 2 na Liga dos Campeões antes de receber o Atlético de Madrid no jogo de volta, na quarta-feira.

Alguns torcedores do Spurs na fileira à minha frente se concentraram em fotografar Mohamed Salah enquanto ele aquecia entre os reservas do Liverpool. Parte da torcida visitante perguntava entre si quem eram os reservas do Tottenham. Nada surpreendente, já que o clube recorria a nomes como James Wilson, James Rowswell e Callum Olusesi.

Torcedores do Tottenham, acostumados ao sofrimento, acompanham a equipe sofrer diante do Liverpool

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Jogadores do Tottenham fazem questão de aplaudir a torcida visitante em Anfield no domingo

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Presença mais familiar entre os reservas, Xavi Simons observava atentamente o jogo enquanto fazia seu próprio aquecimento à beira do campo.

O clima de profunda desolação ficou evidente quando parte da torcida relutou em voltar às arquibancadas para o início do segundo tempo. Os gritos de 'Tudor fora' já ecoavam naquele momento. O Tottenham segue sondando candidatos para substituí-lo.

Simons é um dos jogadores que se imaginava que Tudor pudesse aproveitar mais, depois de liderar a reação da equipe no empate em 2 a 2 com o Manchester City no mês passado e ser eleito o melhor em campo contra Borussia Dortmund e Eintracht Frankfurt em jogos consecutivos da Liga dos Campeões.

O capitão Cristian Romero não se mostrou exatamente o homem certo para esta crise após criticar publicamente a direção do clube. Em vez disso, Tudor parece ter encarado a decisão de manter o holandês e Randal Kolo Muani no banco como uma demonstração de força.

Aos 55 minutos, Tudor já preparava a entrada de Simons. O jogador de 22 anos estava em campo havia menos de um minuto quando finalizou para grande defesa de Alisson. Atuando entre as linhas, ele elevou o nível do Tottenham.

A determinação da equipe pareceu se fortalecer, e os torcedores visitantes também se animaram por instantes. Mas esse otimismo foi abalado quando Salah entrou e se mostrou uma ameaça constante no ataque do Liverpool. O setor visitante já estava tomado pela resignação, com mais uma derrota parecendo certa, até Richarlison levá-lo ao delírio.

Tudor preferiu não se juntar aos jogadores que foram aplaudidos pelos adeptos, revigorados por uma positividade muito necessária após uma reação que mostrou que este elenco — desfalcado, com 13 jogadores ausentes — talvez ainda tenha poder de luta.

Os dados da partida da StatsPerform mostraram como Simons, avisado três dias antes do jogo de que não começaria como titular, contribuiu apesar de Tudor, e não por causa dele.

Xavi Simons impressionou ao sair do banco em Anfield, apesar dos esforços de Tudor para contrariá-lo

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Enquanto os jogadores se afastavam, alguns torcedores entoavam cânticos de 'Vamos permanecer na primeira divisão'

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Desde que entrou em campo, ele completou mais passes no terço final e fez mais dribles do que qualquer outro jogador, ficando atrás apenas de Pape Matar Sarr em conduções progressivas.

Enquanto os jogadores se afastavam, alguns torcedores entoavam: ‘Vamos permanecer na divisão’. É um refrão típico, ao longo dos anos, daqueles que sabem e aceitam que há clubes superiores ao seu, mas que se recusam terminantemente a cair sem lutar.

O Tottenham não vive uma adversidade deste nível na era contemporânea, ao contrário de Forest, West Ham e Leeds United, que também estão nesta luta contra o rebaixamento. A grande questão para os próximos meses, que serão decisivos, é saber se a torcida conseguirá deixar o desespero de lado e, ao menos por enquanto, abraçar a batalha em que o time se encontra. O Forest espera que não.

O duelo entre as duas equipes no Tottenham Hotspur Stadium, no domingo, promete ser monumental.

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