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As jogadoras de futebol do Irã enfrentaram uma escolha impossível, mas não devemos romantizar o que estão vivendo | Shiva Mokri e Moones Mansoubi

Quando vimos as jogadoras da seleção feminina do Irã permanecerem em silêncio durante o hino nacional na Copa da Ásia Feminina, na Austrália, isso pareceu algo pessoal. Para muitos espectadores, foi apenas um gesto político. Mas, para os iranianos que assistiam ao redor do mundo, aquele silêncio transmitia uma mensagem entendida de imediato. Parecia um aperto de mão à distância, uma mensagem silenciosa enviada sem slogans, sem confronto, sem violência. Um sinal discreto entre mulheres que sabem o que significa viver sob um sistema em que até o menor ato de autonomia pode trazer consequências enormes: desaparecimento, prisão ou execução.

Agora, as jogadoras enfrentam outro tipo de pressão. Algumas permanecerão na Austrália com vistos humanitários temporários, mas essa escolha tem um preço. Para muitas, ficar no exterior pode significar pressão contínua do regime sobre suas famílias e a impossibilidade de voltar para casa enquanto o regime permanecer no poder, afastando-as de tudo o que lhes é familiar — não apenas das ruas de suas cidades, mas também da rotina da vida familiar. Para aquelas que retornarem, o peso não será menor. Elas podem ter pais idosos para cuidar, parentes que dependem delas financeiramente ou entes queridos cujas vidas estão diretamente ameaçadas pelo regime iraniano. Cada escolha é angustiante, cada caminho é perigoso. As jogadoras foram descritas como “traidoras em tempo de guerra” por um comentarista ligado ao Estado, que pediu que elas fossem “tratadas com mais severidade”.

Para as jogadoras apanhadas entre essas realidades, o dilema deve ser avassalador. Quer permaneçam no exterior ou regressem para casa, o custo será profundamente pessoal. Para entender por que este momento tem tanta força, é impossível separá-lo da história mais ampla das mulheres iranianas. O que vimos naquele campo de futebol não surgiu de repente. É o resultado de décadas de luta feminista, expressa de forma mais visível em 2022 no movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, no qual dezenas perderam a vida simplesmente por defender direitos humanos básicos. Os protestos contra o regime continuaram desde então, e as manifestações de janeiro, em resposta à crise econômica do país, resultaram em milhares de mortes. As leis da República Islâmica do Irã impõem discriminação estrutural contra as mulheres, especialmente nas áreas do direito de família e do direito penal. O hijab obrigatório, o direito ao divórcio, à guarda e ao dote, além de restrições ao emprego e a viagens sem a permissão do cônjuge, estão entre as principais leis discriminatórias. Agora, a situação em todo o Irã está se agravando, enquanto os Estados Unidos e Israel realizam ataques. O país inteiro vive sob a sombra da guerra, assim como há muito tempo vive sob repressão política. Nesse caos, a vida dessas atletas está presa entre forças muito além de seu controle. É importante não romantizar o que elas estão vivendo. Buscar refúgio raramente é um momento triunfante. Isso vem acompanhado de luto, incerteza e da dolorosa possibilidade de uma longa separação de casa. Ainda assim, mesmo nesse ato silencioso e limitado, há algo de extraordinário. As mulheres iranianas têm mostrado coragem e resiliência impressionantes. Elas se colocaram em perigo e em posições difíceis, até impossíveis, mas não deixam de lutar pelo que é certo. Naquele campo de futebol, naquele silêncio, elas mostraram ao mundo o que significa afirmar dignidade, escolha e humanidade, mesmo sob ameaça, mesmo à sombra da guerra.

Imagem de cabeçalho: [Fotografia: Matthew Starling/SPP/Shutterstock]

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