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COLUNA: Inimitável, versátil e insubstituível — o legado de Antoine Griezmann no Atlético de Madrid

A 29ª rodada de La Liga teve de tudo: a maior virada em um jogo do campeonato em 21 anos e um clube histórico cada vez mais perto do abismo. A disputa pelo quinto lugar segue inalterada, enquanto a Espanha se aproxima de garantir uma vaga extra na Champions League. Na ponta da tabela, o Barcelona venceu o Rayo por 1 a 0 e manteve quatro pontos de vantagem sobre o Real Madrid — os merengues derrotaram o Atlético em um dos dérbis mais mal arbitrados da liga nos últimos tempos.

Pouco depois de Jose Luis Munuera Montero encerrar a partida aos 95min49s — apesar dos seis minutos de acréscimo anunciados no Bernabéu —, o Marca publicou uma exclusiva: o astro do Atlético, Antoine Griezmann, estava a caminho dos Estados Unidos para assinar um contrato de dois anos com o Orlando City SC.

A informação foi desde então confirmada por vários meios de comunicação e, à espera de um anúncio oficial do clube, Griezmann — que completou 35 anos no sábado — deixará o Atlético em junho, após o fim da temporada europeia.

A saída de Griezmann em junho para a Major League Soccer, onde ele há muito tempo diz querer jogar, colocará ponto final em uma carreira lendária no futebol espanhol, embora nem sempre devidamente reconhecida. O francês soma 556 partidas em La Liga, a quarta maior marca da história; seus 204 gols o colocam em 11º lugar na competição, enquanto suas 98 assistências o deixam em sétimo. Por qualquer critério, ele é uma lenda da liga.

Apesar do brilho no Atlético, na Real Sociedad e por vezes no Barcelona, Griezmann tem apenas uma Copa do Rei como título nacional, um registo modesto para um dos grandes jogadores da sua geração. Tudo isso pode mudar em 18 de abril, quando Griezmann e o Atleti enfrentarem a Real Sociedad na final da Copa do Rei, na véspera da semana da Feria, em Sevilha. E, embora o Atlético não esteja entre os favoritos na Liga dos Campeões, o duelo das quartas de final contra o Barça promete muitos gols. Não se pode descartar que Griezmann ajude seus queridos Rojiblancos a alcançar uma primeira semifinal em nove anos.

O que Griezmann e o Atlético significam um para o outro não cabe em uma ou duas frases, nem em quatro parágrafos. Ainda assim, vou tentar.

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No Atleti, Griezmann ajudou a levar o clube para a era moderna; seu talento e estrelato atraíram uma multidão de novos torcedores justamente quando a equipe trocou o querido, mas envelhecido, Vicente Calderón pelo reluzente Metropolitano. Habitualmente à sombra do Real Madrid, do estádio Bernabéu e de seus 15 títulos da Liga dos Campeões — como os torcedores merengues gostam de lembrar — no elegante bairro de Chamartín, o Atleti encontrou seu lar em San Blas-Canillejas, área de classe média, desde a mudança em 2017. A recente mudança de controle do clube e os ambiciosos planos da Ciudad del Deporte podem ser atribuídos a uma projeção internacional que cresceu sob Diego Simeone — e durante as duas passagens de Griezmann sob seu comando.

Para Griezmann, o Atleti foi a plataforma para o reconhecimento global e o estrelato. Com a camisa rubro-branca, ele terminou duas vezes no pódio da Bola de Ouro, em 2016 e 2018; o Atleti chegou a finais europeias nas duas temporadas, perdendo de forma controversa a Liga dos Campeões em 2016, mas goleando o Marseille para vencer a Liga Europa dois anos depois. Griezmann então conquistou a Copa do Mundo com a França e recusou publicamente o Barcelona — embora as negociações para sua transferência tenham continuado em segredo até o ano seguinte.

Essa revelação fez a torcida do Atlético se voltar fortemente contra Griezmann, que não encontrou os títulos que buscava após se transferir para o Barcelona por 120 milhões de euros em 2019. Deslocado para a ponta em um ataque estrelado com Lionel Messi e Luis Suárez, Griezmann foi duramente vaiado quando o Barcelona foi ao Metropolitano naquele dezembro; depois de 102 jogos e 35 gols na Catalunha, ele protagonizou um retorno surpreendente por empréstimo a Simeone e ao Atleti no último dia da janela, em agosto de 2021.

O clube e o treinador o receberam de braços abertos no regresso, mas Griezmann só reconquistou a torcida mais de um ano depois. Alguns ainda não o perdoaram por ter saído, e nunca o farão — embora desde então ele tenha se tornado o maior artilheiro da história do clube, com 211 gols em todas as competições.

A versão 2025/26 de Griezmann se consolidou como uma das mais agradáveis de ver. Já não é o atacante de 25 a 30 gols por temporada: o francês passou por mais uma transformação na carreira e atua como um camisa 8 flutuante, usando inteligência, técnica e uma classe atemporal para comandar as transições e criar finalizações. Depois de um período no banco nos primeiros meses da temporada, Griezmann voltou ao time ideal de Simeone e reencontrou o faro de gol; seus cinco gols na Copa del Rey são a maior marca da equipe, e o Atleti não chegaria à final do próximo mês sem ele.

Griezmann é um jogador insubstituível no Atlético. O clube já tentou preencher essa lacuna antes e sabe disso. João Félix é uma das maiores decepções da história do clube. Alex Baena também não correspondeu às expectativas, embora as lesões tenham impedido uma sequência regular até janeiro.

Não, Griezmann é inimitável: um atacante camaleônico, cuja inteligência e intensidade de trabalho igualavam seu talento ofensivo e sua habilidade natural. Simeone sempre falou de Griezmann em termos elogiosos, como aquele jogador raro que incorporou sua filosofia sem a bola enquanto se destacava como a principal referência ofensiva da equipe. Isso o transformou em um ídolo.

Nem o Atleti nem LaLiga voltarão a ver alguém como ele tão cedo — se é que voltarão algum dia.

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