Ancelotti: "Por que o Real Madrid mudou? Não foi apenas Kroos por Mbappé"
Carlo Ancelotti (Reggiolo, 1959) encerrou sua passagem pelo Real Madrid no verão passado como o treinador mais vitorioso da história do clube, deixando um legado inesquecível. No entanto, ‘Carletto’ ainda aguardava um dos poucos desafios que faltavam em sua carreira lendária: comandar uma seleção. O Brasil insistiu e o convenceu a buscar a tão aguardada sexta Copa do Mundo.
Por ocasião do 25º aniversário da Radio MARCA, a emissora esportiva foi à sede da CBF para homenagear a trajetória do técnico italiano. Na entrevista, Ancelotti falou sobre seus primeiros meses no Brasil, sua relação com o Real Madrid, o contato com os jogadores do clube, a evolução do futebol nas últimas décadas e sua visão sobre atletas como Vinicius e Valverde.
Obrigado por abrir as portas da sua nova casa para nós. Há mais cor do que em Valdebebas, e o espírito brasileiro é bem diferente do de Madrid.
O escritório em Valdebebas era muito maior, mas diferente. Aqui há muitas cores, muita alegria.
Quando você deixa Madri após vencer a Liga dos Campeões, só pode vir para o Brasil.
Sim, acho que sim. Eu não pensava em ir para outro clube depois do Madrid. A oportunidade com a seleção brasileira surgiu há dois anos e então renovei com o Madrid, mas no ano passado entendemos que era hora de sair e agora estou feliz.
Vejo que você está bem, vejo você mais bonito.
Sim.
Não sei se estou menos preocupado...
Agora, com certeza, menos pressão.
A. Menos pressão?
Há menos stress porque não há muitos jogos; é mais um trabalho de observação. Não é preciso preparar treinos todos os dias, é uma função diferente, com muito mais pausa, mas interessante, e é preciso observar os jogadores... O Brasil tem pelo menos 70 que podem estar na seleção, e avaliar todos não é tão simples.
Mas, em dois meses, as pessoas estarão pedindo a sexta temporada...
Eles pedem isso há muito tempo. Não é apenas uma meta, mas também uma motivação.
Ganhar a Copa do Mundo com o Brasil não é uma meta, é uma motivação
Essa pressão é perceptível nas ruas e na vida cotidiana?
R. As pessoas me recebem muito bem aqui, sou muito respeitado e me querem muito bem. O ambiente no Brasil é de futebol, muito apaixonado, e as pessoas são muito ligadas ao esporte. Elas são felizes, alegres e pessoas do bem.
Você teve alguma dúvida antes de assinar com o Brasil?
Não hesitei. A verdade é que a velha escola brasileira reagiu um pouco aos treinadores estrangeiros, mas, como eu disse, a recepção de todos tem sido fantástica. Tenho uma relação muito boa com os treinadores que trabalham aqui, por exemplo no Palmeiras, no Flamengo ou no Bahia. Converso muito com eles porque acho que podem me ajudar na busca por jogadores, já que muitos estão na Europa, mas outros estão atuando aqui.
A sede da CBF é como Valdebebas: aqui, você é recebido por lendas e mais lendas. Fomos recebidos por Cláudio Branco.
É algo muito semelhante, a história é muito importante. No Madrid, a história está presente todos os dias em Valdebebas. Você vê Di Stéfano, Puskás, Sergio Ramos, Casillas ou Ronaldo. Aqui é a mesma coisa: Pelé está dentro desta casa todos os dias, assim como Zico, Romário e todas as grandes lendas do futebol brasileiro.
Pergunta: Você treinou alguns dos melhores do mundo, mas, falando apenas de brasileiros, teríamos um time campeão da Copa do Mundo.
Sim. No gol, eu colocaria Dida. Cafu na direita, Militão ou Thiago Silva na zaga e Marcelo na esquerda. No meio, Casemiro, Kaká... Tenho certeza de que vou esquecer alguns. Pela direita, Rodrygo — ou onde ele quiser. Pela esquerda, Vinicius. E no ataque tenho muitas dúvidas: Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho... são muitos.
Neste momento, você está perto de fechar uma lista quase definitiva para a Copa do Mundo.
Não é fácil definir a lista porque há muitas opções, especialmente no ataque. Um pouco menos no meio-campo ou pelos lados, mas há a possibilidade de escolher os jogadores que atuarão nos próximos amistosos e na Copa do Mundo.
Também viemos para celebrar o 25º aniversário da Radio MARCA. Você se lembra do que estava fazendo em 2001?
R.: Em 2001, eu tinha sido dispensado pela Juventus e estava de férias à espera do Milan.
Essa etapa foi certamente uma das que mais lhe ensinou?
É bastante comum aqui que treinadores sejam demitidos. Às vezes, você é demitido mesmo fazendo um bom trabalho. Isso me afetou muito pessoalmente, porque a primeira demissão pesa mais. A última vez foi no Napoli, em 2020, e você acaba encarando isso como parte da profissão. Quando se perde a confiança com o clube, é preciso sair.
O futebol mudou muito nesses 25 anos?
Mudou muito. É impressionante o quanto mudou.
Para o bem ou para o mal?
Não sei se isso é para melhor ou para pior. Em termos de ambiente, certamente melhorou: estádios melhores, gramados melhores e arbitragem melhor graças à tecnologia. A intensidade aumentou, mas mais intensidade nem sempre significa mais espetáculo. Acho que hoje o talento tem mais dificuldade para se destacar do que há 20 anos.
Sente falta de algo em Madrid e no Real Madrid?
Vivo com tranquilidade porque cada momento tem o seu tempo. Guardo memórias fantásticas do longo período no Madrid e um carinho extraordinário pelo clube e pelas pessoas que trabalham lá. Agora estou em outro projeto e o vivo com a mesma intensidade. Quando o Madrid joga, eu assisto — não apenas para ver os brasileiros, mas também para acompanhar o Madrid e torcer para que vença.
Você usa o telefone para falar com pessoas em Madri?
Sim, às vezes. Depois do jogo contra o Manchester City, parabenizei o clube e o presidente. Também falo com os jogadores. Outro dia, conversei com Rodrygo para saber como ele estava. Tenho contato, sim.
Ele felicitou Florentino pelo jogo contra o City e também falou com os jogadores
Você entendeu por que aquele time perfeito do Madrid mudou tanto depois?
O futebol muda com alguns fatores, e com isso a química também muda. Não é apenas uma questão de ambiente, nem apenas de trocar Kroos por Mbappé. Naquele mesmo ano, Nacho saiu, Carvajal se lesionou e Modric passou a jogar menos. A antiga geração, que havia criado um ambiente fantástico no vestiário, já não está mais lá, e uma nova geração de jogadores precisa chegar trazendo caráter, personalidade e exemplo. Isso não acontece de uma hora para outra, leva tempo. A chegada de Mbappé coincidiu com duas saídas importantes, como as de Kroos e Nacho, em um ambiente diferente. Mbappé foi muito bem, marcando cerca de 50 gols, e a equipe teve dificuldades para conquistar títulos, porque o futebol é feito de pequenos detalhes e, quando você muda algo, nem sempre dá certo.
Agora é preciso fazer o oposto com o Brasil, que já tentou com diferentes treinadores e agora precisa fazer isso engrenar.
Sim, totalmente. A dificuldade precisa servir de motivação para fazer melhor. A sensação que tenho é de que há um ambiente preparado para vencer. Existe muita pressão, é verdade, mas também há um carinho incrível pela seleção. Aqui, quando a seleção joga, tudo para; não é o mesmo ambiente da Europa. Acho que, na Europa, as seleções perderam força com o calendário e competições como a Liga dos Campeões. No Brasil, a equipe mais importante é a seleção, e para os jogadores é muito especial vestir essa camisa. Isso é bom, mas também há pressão demais sobre o futebolista. Um erro em um amistoso aqui já traz consequências, e eu quero trabalhar com eles para que não coloquem tanta pressão sobre si mesmos.
Você sempre gostou muito de ditados.
R. Sim, eu gosto deles.
Há um ditado que diz que a pressa é má conselheira.
R. Há outra de que gosto muito: "Trabalho duro e sacrifício superam o talento apenas quando o talento não tem trabalho duro nem sacrifício".
Você vê os brasileiros do Madrid muito diferentes quando estão na seleção? Vinicius, Rodrygo e Militão são os mesmos?
O que muda é o ambiente no vestiário. Em um clube, você tem jogadores de muitas nacionalidades; aqui, são 25 brasileiros com a mesma língua e cultura. A comunicação é mais direta e contínua. A dificuldade para um clube é incorporar tudo isso, e a tendência é separar o grupo, mas isso é totalmente normal.
Vinicius pode voltar a dominar o futebol mundial?
Vinicius nunca falhou em jogos importantes. Não me lembro de uma semifinal ou de umas quartas de final em que Vini tenha falhado. Pode ser que Vinicius tenha se irritado em Valência e saído do jogo, mas em partidas decisivas isso nunca aconteceu. Tenho certeza de que ele fará uma grande Copa do Mundo se estiver na convocação.
Esta etapa ajudou você a entendê-lo melhor?
Ele é brasileiro e tem o caráter de um brasileiro. O brasileiro é uma pessoa alegre e muito humilde; ainda não encontrei ninguém arrogante, nem na CBF nem entre os brasileiros que conheço. Vinicius é humilde, alegre e tem um talento extraordinário.
À espera do jogo em Manchester... o Real Madrid vai avançar?
Sim, isso vai acontecer. É preciso defender bem e ter equilíbrio.
Equilíbrio é a sua palavra favorita.
A. É o ideal. Eles vão precisar disso e de Valverde em campo.
Você ficou surpreso com a atuação de Valverde? Isso te surpreendeu?
Não, isso não me surpreendeu, por isso mantive minha licença de treinador... mas os três gols, sim, foi incrível. Enviei uma mensagem para ele.
O que ele disse para você?
A. Eu disse: "É uma pena que você não tenha passaporte brasileiro."